Pé Frio
Eu sou pé-frio. Não estou me referindo ao inverno e a necessidade de meias. Eu sou azarado.
A alguns dias atrás, escrevi (finalmente) sobre o projeto em que trabalhei pela IBM nos últimos dois (uma semana para completar três) meses. Trabalhei. Isso mesmo.
Apenas uma semana depois do post e no exato dia em que eu fiz o meu primeiro commit com a minha absolutamente recém-criada conta no repositório Subversion do GNOME (código meu já havia entrado anteriormente, só que não era eu quem fazia o commit), recebo via email a notícia que a IBM está mudando o foco de sua atuação no que diz respeito à Acessibilidade, tirando de Linux e reforçando em aplicações como Firefox, Eclipse e ARIA (Accessible Rich Internet Applications).
Em outras palavras, o projeto de desenvolvimento do LSR e todas as atividades do Linux Accessibility Project foram terminadas. Ruá!
Graças à natureza aberta de todos os projetos dentro do LAP, nada se perderá — o que, nessas horas, me faz lembrar que eu preciso acender um incenso em homenagem ao Stallman — mas a participação direta da equipe, sob patrocínio da IBM, não vai mais acontecer.
OK, sejamos compreensivos. Não é o primeiro projeto em que eu atuo que é cancelado. Não morri na primeira vez e nem nas seguintes, nem morrerei nessa. Entendo que uma empresa precise ter um direcionamento estratégico para não se perder e ir por água abaixo.
Mas eu acho que a decisão estratégica é falha. Empresas grandes tem essa peculiaridade, existem tantas pessoas envolvidas em qualquer coisa, que todas as opiniões acabam tendo representatividade.
Sou da opinião que sim, é de suma importância que aplicações como as citadas tenham um suporte forte a tecnologias assistivas. Hoje existem cada vez mais pessoas falando sobre acessibilidade web que eu acho ótimo. É algo que precisa ser trazido à tona, compreendido por todos os profissionais do meio para que deixe der visto como altruísmo e assim por diante.
Entendo também que hoje, cada dia que passa, mais pessoas anunciam o fim do desktop tradicional, o que me permite compreender a mudança de foco.
Entretanto, assim como tudo nesse mundo tecnológico (no sentido mais amplo possível, não limitado à computação), Acessibilidade se beneficia e muito de padrões e implementações dos mesmo. É necessário também ferramentas que sejam capazes de interpretar os eventos e informações enviadas pelas aplicações e as transformar em resposta para o seu usuário.
E, se por um lado o desktop tradicional está morrendo, o novo terá que ser construído sobre alguma coisa, e espero que essa alguma coisa seja acessível. Um dos grandes diferenciais do GNU/Linux (explicitando a outra parte, por questão de justiça e clareza de argumento) é a sua flexibilidade.
Não duvido que modelos de approach futuro no que diz respeito à Interface Homem-Máquina sejam construídos sobre Linux (duvido, entretanto, que só exista um approach). A existência de implementações dos padrões de acessibilidade e as ferramentas atuais poderiam servir de base ou, no mínimo, lições aprendidas para implementações futuras, o que por si só vale o investimento agora.
Enfim, pode ser que eu esteja passando por um momento de angústia. Achei que tinha superado esse tipo de coisa depois do meu primeiro projeto cancelado. Talvez seja porque eu já estivesse realmente envolvido com algo que me agradava por n razões — Python, Software Livre, Acessibilidade, Linux. Talvez seja porque o meu pé-frio às vezes me incomoda.
A partir de segunda-feira, então, voltarei a programação normal. Acho.
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Comentário de Ronaldo - 02.06.07 @ 12h51 #
Caramba, que azar mesmo. Confesso que estava até curioso para acompanhar sua jornada do LSR, e imagino que essas mudanças tenham vindo de carona nos anúncios das duas últimas semanas, considerando quão volátil é o mercado. Boa sorte na segunda-feira e aqui vai uma desejando que você pegue um projeto tão interessante para você quanto o outro.
Comentário de Luiz Rocha - 05.06.07 @ 16h41 #
Acho que, devido ao feriado de quinta, a definição do futuro será adiada para a próxima segunda-feira.