Como eu gosto de assistir cinema
Um pouco após assistir A Ameaça Fantasma, que eu ansiosamente esperei por anos, eu tomei uma decisão. O primeiro episódio da prélogia Star Wars me agrada até hoje, independente do que os críticos falem. Mas a experiência cinematográfica, me recordo bem, não foi das melhores.
Voltemos nossa atenção para um filme do mesmo ano (1999) do Episódio I. Para um filme que, quando eu assisti no cinema (Eldorado, a película queimou e o Cazé, então da MTV, alegrou a galera até o filme voltar), fodeu com a minha cabeça.
O filme é Matrix. Eu não queria assistir Matrix, pasmem. Me cheirava a escambo Hollywoodiano para faturar o meu escasso dinheiro (faculdade, sabe como é). Fui com alguns amigos e sequer questionei o fato de ser no Eldorado. Fui pela companhia. Não sabia do que se tratava o filme e, graças a isso, meu cérebro não estava com nenhum calo ou restrição quando o experienciei.
Descobri, depois, que aquilo tinha me ajudado a curtir o filme, facilitou a minha imersão no mundo e na história que estava sendo contada.
Uma experiência muito similar com a que tive quando li O Guia do Mochileiro das Galáxias. Sabia apenas que se tratava de um livro em que a Terra explodia no começo. Mais nada. Foi uma viagem inesquecível. Conhecer os personagens a medida que o livro avança na história. O fator surpresa, que me fazia gargalhar no ônibus e receber uma dezena de olhares feios de pessoas estressadas pelo dia de trabalho.
Eu queria isso para a minha experiência cinematográfica também. Pensando assim, decidi que não buscaria nenhuma informação sobre O Ataque dos Clones. O resultado foi tão satisfatório — eu quase levantei da cadeira e gritei yeah, bitch! quando vi o mestre Christopher Lee em cena — que desde então passei a ser um usuário reativo de sites bacanas como o Omelete e o Sobrecarga.
Não que eu não me interesse por detalhes de produção e tudo quanto é coisa sobre filmes bacanas, mas eu só quero saber deles depois de curtir o filme no cinema.
Como prova definitiva que essa abordagem é a que — para mim, pelo menos — é definitiva, cito que ano passado, quando fui convidado por um primo para assistir O Abismo do Medo. Um dos melhores e mais bem feitos filmes de terror que eu já assisti na vida — e obrigatório para qualquer pessoa, ponto.
Não resisti e dei uma zapeada em algum site qualquer cheio de especialistas em cinema. Li muito pouco, mas fiquei com um pé atrás e, quando fui ao cinema, demorei para atingir um estado de imersão adequado para curtir mesmo o filme. No fim não estragou pois, no final das contas, o filme é tão poderoso e o clima tão denso que não foi possível não me deixar levar pelo filme. Mas poderia ter sido melhor. Poderia ter me surpreendido mais.
Admito que muitas vezes é difícil seguir essa estratégia. Desde que fiquei sabendo que 300 viraria filme, estou tendo que me controlar. E até ficar sabendo que o Nicholas Cage seria o Motoqueiro Fantasma, confesso que foi quase impossível me segurar.
Admito que existam colaterais dessa estratégia que são potencialmente irritantes, como perder algum lançamento bacana no meio do caminho. Fato. Mas estou cercado por pessoas que não conseguem viver sem assistir a todos os trailers de filmes que estão para sair, não conseguem não ler todas as notícias e afins. Essas pessoas próximas — amigos e primos — servem como baliza. Até agora, tem funcionado, apesar de, uma vez ou outra, eu ficar sabendo mais do que eu gostaria sobre algum filme.
E admito também que essa estratégia representa um regresso em tudo que a Internet e o acesso livre as informações representou para a o cinema e a mídia em geral. Isso, entretanto, me incomoda pouco. O prazer de ir a um filme pela primeira vez, sem a sensação de que se está assistindo pela segunda, não tem preço.
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