Deixe o assunto morrer
A atitude da Cicarelli (e sua patota) é da mais escrota possível. Isso é indiscutível. O que foi feito (e desfeito) é censura. Ninguém pode (ou deveria poder) impedir o livre acesso ao conteúdo que está disponível na internet.
A parte dita prejudicada é que não deveria ter aprontado o que aprontou, em primeiro lugar.
Mas nesse momento de fúria contra a ação dela para bloquear o site mais visitado do mundo tem que ser vista por inteiro, e não por partes. O bloqueio ao YouTube é uma conseqüências, não uma causa.
E é uma conseqüências de 3 erros — e não apenas de um — sendo eles:
Daniela ter vacilado a ponto de ter sido filmada fazendo o que fez.
O paparazzi que filmou a Daniela. Não importa a merda que ela fez, paparazzis invadem a privacidade e isso é um crime. Ponto.
Todos nós que, de alguma forma, nos divertimos com o acontecido.
O primeiro ponto é bastante óbvio. Ela vacilou. E vacilou, dançou. Não tem desculpa, não tem choro nem vela. Toda pessoa pública que vacila hoje é pega no ato. A tecnologia garante isso hoje. Ninguém escapa.
Pergunte para o Michael Richards (o Kramer do Seinfeld), para a Paris Hilton ou para qualquer uma das atrizes brasileiras que foram “pegar” sem calcinha em 2006.
Não estou defendendo o que ela fez, e isso precisa ficar bem claro. Ela fez merda. Não consigo ser mais claro que isso.
Já o segundo entra num ponto que eu acho mais delicado. A privacidade. Sim, ela vacilou, mas filmar/fotografar uma pessoa — qualquer pessoa — da maneira que os paparazzis fazer é invasão de privacidade.
No mundo hoje, com a tecnologia que temos, podemos pegar quase tudo, quase todos os deslizes, informações, detalhes, e colocar tudo na net. A privacidade passa a ser cada vez mais um assunto importante e, invasão de privacidade, um crime mais comum, e ao mesmo tempo, grave.
Pessoa pública ou não, o paparazzi (profissional ou amador) que filmou a cena cometeu um crime grave.
Agora, o terceiro ponto é ignorado veementemente em todas as discussões. Todos nós (ou pelo menos, a maioria) temos responsabilidade no que está acontecendo. Porque nós participamos do processo de ponta a ponta.
Seja mandando imagens com piadinhas via email, seja assistindo o vídeo ou comentando o assunto, gastando bits à toa.
�? por causa de gente como a gente que existem pessoas como a Daniela e os paparazzis existem. �? por causa da nossa necessidade de ter celebridades e saber se ela é engajada politicamente, se ela é religiosa, se canta e dança, se usa roupa de baixo deles ou se faz sexo anal. �? por causa da nossa fissura com as ditas celebridades que toda a indústria ao redor delas existe. Incluindo a dos paparazzis e escândalos publicitários, como esse.
Se todos nós tivéssemos ignorado o acontecido sumariamente, sem imagens engraçadas do Kibeloco, sem o desespero para ficar colocando o vídeo de volta no YouTube, para mostrar que a gente é esperto e vai contra a lei, sem dar um pingo de importância para o ocorrido, será que teria chegado nesse ponto?
Duvido.
Quem já passou um reveillon em uma praia muito cheia ou muito vazia, já deve ter visto gente transando na água. Inclusive em 2007, mesmo depois do vídeo da moçoila. Nenhum desses virou escândalo. E o porque é óbvio, não tinha ninguém famoso.
Em outras palavras, não havia o desespero para saber quem que era, para fazer imagens engraçadas e distribuir por email. Não eram celebridades.
O que fazer então? Simples, deixe o assunto morrer. Nada de site para boicotar a mulher ou para fazer algum outro barulho. Parar de mandar o vídeo para o YouTube e ajudar a tirar ele de lá. Deixe o assunto morrer.
Deixe o assunto morrer. Pelo amor do Garrincha.
Se nós abstrairmos as celebridades e toda a indústria que gira em torno delas, essas comoções públicas deixam de acontecer. Celebridades e paparazzis vivem da atenção pública. Nós demos isso a eles de sobra, e agora estamos pagando o preço.
Agora, se parar de acessar sites de fofoca é um preço alto demais, então não reclame quando uma dessas ditas celebridades da vida resolver tentar monopolizar a atenção do mundo. Nós somos a razão delas existirem, não o contrário.
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