LSDR.net Aleatoriedades por Luiz Rocha

Limite da Ignorância

Não vou tecer os comentários tradicionais sobre SPAM/Phishing. O que me motivou a postar é como SPAM/Phishing (e/ou SPAMMERS/Crackerz) estão ficando cada vez mais preguiçosos — ou os usuários leigos de email e WWW ficaram, definitivamente e irreversivelmente idiotas. Aliás, me questiono num ambito mais geral. Teriam os usuários de tecnologia ficado irreversivelmente idiotas?

O que me leva a escrever isso é o fato de que nos últimos meses eu tenho recebido os tipos mais retardados de SPAMs e Phishing attempts. Nada de truques para evitar anti-spams e para fingir o mínimo que é um email válido. Não existe mais esforço, praticamente, porque o público suceptível a esse tipo de sacanagem é tão tapado que não é mais necessário fazer esforço.

Ontem, recebi um email que se dizia da Receita Federal. O corpo sequer tinha um logo ou qualquer coisa. Os destinatários estavam todos entuchados no campo To: e — preste atenção agora — o campo From: estava preenchido com um email @globo.com. Ridículo, né? Pois é, tem mais. O email apontava para um arquivo executável, se fazendo passar por um link para uma página Web.

E esse email deve ter pego pelo menos uns dois ou três trouxas.

Sabe por que? Porque tem se vendido a idéia de que cada vez mais os sistemas devem ser intuitivos e simples para o usuário leigo usar, sem ter que absorver uma série de conceitos novos e estranhos para ele. E a industria da tecnologia — infelizmente — tem tido um resultado positivo nesse aspecto.

O reflexo disso é que o usuário leigo deixa de ser leigo e passa a ser burro. Vc pode proteger o usuário e simplificar a vida dele ao máximo, mas se ele não tem o mínimo de condições de operar e viver num mundo tecnológico, ele vai ser uma vítima da sua própria ignorancia.

Concordo que trazer simplicidade ao ferramental do dia-a-dia de um usuário é essencial para a disseminação de uma tecnologia. Não, não estou dizendo que todo o mundo deveria ser um hacker Linux e não, não estou dizendo que todo o mundo deveria fazer computação.

Estou dizendo que deveria haver um limite em quão simples as coisas podem ser para que o usuário leigo opere com um mínimo de conhecimento. Mesmo que isso signifique aumentar um pouco mais a curva de aprendizado de uma ferramenta ou duas.

Pode não eliminar as sacanagens de outrém, mas vai dificultar o abuso de novas (e velhas) tecnologias, além de — uma vez que o usuário deixar de ser uma mula manca — facilitar a adoção de novas tecnologias e evolução das existentes.


2 Comments

Tecnologia é a pizza e informática é apenas uma fatia da mesma, talvez três. Para “comer” informática no dia a dia não podemos ser tapados, mas podemos escolher se pegamos os talheres ou o guardanapo.

A informática provê ao usuário algo bem diferente do que ele já viu até hoje, a falta de tangibilidade. Ele entra no que chamamos de realidade virtual. � um mundo pra cabeça, e só.

Ligar a TV é fácil pois existe um botão vermelho e grande escrito ON/OFF e geralmente o mesmo encontra-se no topo do dispositivo.

E ler e-mail? Quando aprende-se a usar um cliente de e-mail (outlook, configurado pelo sobrinho) logo surge a necessidade de acessar os emails por um webmail (por que estou numa lan house). E quando me acostumo com a interface do Hotmail, aí vem o Yahoo e esculhamba. E o GMail então?! Nossa.

Em resposta a complexidade proposta pela explosão do meio, agora um tsunami de “usabilidade” e “acessibilidade” invade o navegador dos surfistas de primeira viagem. Tudo é grande, fácil, limpo, agradável e padronizado.

Em resposta a esta simplicidade, surgem os defensores das firulas, que aparecem com o papo fazer com que o usuário tenha uma experiência incrível acessando seu portifólio quando na verdade só querem se promover.

A verdade é que maioria das pessoas são ignorantes no mundo real mesmo, e as mesmas têm que se conscientizar que facilidade não é brincadeira. E-mail não é playground. Alguém depositaria algum dinheiro na conta de outra pessoa caso chegasse uma suposta carta de um órgão duvidoso pedindo isso sem antes consultar uma fonte confiável? Não. Então é absurdo engolir tudo o que chega pela Inbox.

Posted by Fellipe Cicconi on 14 March 2006 @ 3pm

Pois é, só que se vende tecnologia como um grande facilitador e o senso comum traduz isso como ‘mínimo esforço’. A consequencia é que ninguém quer queimar um único neurônio para fazer a tarefa mais chula que existe.

Tecnologia deveria ser vendida com algo que vem para facilitar mudando o comportamento de seu público alvo, e não para deixar esse público mais preguiçoso.

Posted by Luiz Rocha on 2 April 2006 @ 11pm