Quanto vale o Software Livre

Esbarrei nessa notícia ontem, sem querer. E resolvi tecer alguns comentários sobre a mesma.

Aparentemente, um brasileiro resolveu montar em Berlin, um restaurante onde o cliente paga o que acha justo pela refeição (+ vinho) que lhe for servida. Isso mesmo, vc entra no restaurante, come, bebe e contribui com o que acha justo. Vc pode não pagar. Vc pode pagar até demais. Mas por mais incrível que pareça, a maioria - segundo a reportagem - paga algo considerado justo pelo dono do restaurante.

E porque isso me chamou a atenção. é muito comum ver, em fóruns, blogs, listas de discussão e em qualquer lugar que se discuta software livre, que o modelo adotado para suportar o seu desenvolvimento (jamais confunda software livre – que é um modelo desenvolvimento e distribuição de software, com o modelo econômico-financeiro que o suporta) através de doações de dinheiro (e peças, vide FreeBSD) não funciona. Os principais argumentos (que eu já li e lembro, me corrijam se estiver errado) são que as pessoas não tem boa vontade para fazer uma boa ação, que quem precisa de software livre é quem não quer pagar licença e — conseqüentemente — não vai doar e, por fim, que nunca irão existir doadores o suficiente para manter um projeto de médio/grande porte. A reportagem tem uma ótima colocação sobre o assunto. O dono do restaurante, bem como seus clientes e freqüentadores, sabem que se o pagamento deixado para cada refeição for aquém do que foi gasto para preparar a mesma, o restaurante fecha. E todos perdem. Se todo mundo contribuir com o que acha justo, a coisa funciona.

De maneira similar, funcionam as coisas no mundo do software livre. Não é esperado que absolutamente todo mundo contribua. Alguns projetos (como o Apache, ou o Eclipse) tem grandes empresas por trás e — conseqüentemente — possuem um suporte econômico muito mais sólido do que simples doações, outros são compostos por desenvolvedores que já tem um emprego que paga suas contas, logo seu custo não é considerado na divisão da "caixinha".

A palavra "doar", inclusive, me soa muito errada. Não se está doando dinheiro, da mesma maneira que a Tia Cotinha faz para com a igreja e com todas as instituições de caridade que ligam para ela, está se pagando o que se acha justo por aquele software, sendo esse o conjunto de código, documentação e know-how necessário e utilizado para desenvolver ele.

Quando se fala em "doar", as pessoas rapidamente associam com doações para instituições de caridade ou para aquele carinha que vende balas no semáforo. Vc está dando dinheiro por algo que vc não vê o retorno. Sim, muitas pessoas que fazem doações para instituições de caridade não acompanham o que foi feito com esse dinheiro. Com o software livre, muitas vezes vc vê o retorno muito antes de ter condições de doar. Pense num negócio que venha a ser alavancado com a adoção de softwares livre em seu parque tecnológico.

Além da palavra em si, outra coisa que quebra a cabeça daqueles que não entendem — e é foco de ataque por detratores — é que o modelo de suporte econômico do software livre é distinto do modelo utilizado pelas empresas desenvolvedoras hoje. Ser diferente do modelo comercial praticado no mercado não faz do software livre algo insustentável, embora partir de premissas diferentes possa causar muita confusão na cabeça das pessoas.

Penso que se essa reportagem fosse publicada numa revista como a Veja ou a Isto é, populares iriam comentar como a Alemanha é um país civilizado e o povo é muito educado, que esse tipo de coisa só dá certo lá e jamais daria certo aqui. Isso reflete uma simples verdade, que é necessário mudar a mentalidade dos populares brasilis para que um restaurante assim possa operar por aqui.

De maneira similar, é necessários que pensemos diferente para fazer com que o software livre prospere. Mudar a maneira de pensar das pessoas, sejam simples freqüentadores de restaurantes até C[E|T|I|P|F]O de alto salário, não é a coisa mais fácil do mundo, mas é necessário caso seja nosso desejo viver essa outra realidade.

O fato é que é possível sim, e não é tão difícil assim, prosperar nesse modelo de suporte. Não é o único modelo, claro, mas é um modelo razoável, eu acredito. Me parece bastante justo que, para um modelo de desenvolvimento que prega a abertura e o compartilhamento de conhecimento, que se contribua financeiramente de acordo com o benefício obtido, e não por preço fixo.

O valor do software livre é, invariavelmente, o benefício obtido por sua aplicação. Seja ela para o aprendizado de uma nova tecnologia ou para a implantação de uma solução de enorme porte. é necessário que ele tenha reconhecido seu valor.

Por fim, esse é um costume que deve ser enraizado por todos aqueles que se beneficiam e defendem software livre. Que seja através da compra de camisetas do Firefox ou apoiando aquele projeto de menor porte que vc tanto gosta. Nós, usuários e/ou evangelistas, somos de imediato os maiores beneficiários. Para nós, o software livre tem um valor bem definido, embora seja sempre complicado quantificar em custo (eu admito).

Mas se nós não o fizermos, ninguém mais o fará.


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